24.9.20

Suas mãos, sua pele, sua temperatura

A luz do sol incide sobre meu rosto já desperto. Insone, aliás. Na vigília frenética que me tem imposto a colisão das nossas memórias e dos meus desejos.

Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Minhas mãos na calcinha, meu grito sufocado no travesseiro.

Se pensamento fosse sólido, o meu já teria te marcado a ferro nessas paredes. Nos móveis, no chão, no teto. Em tudo que eu toco.

Mas ele é etéreo, e esse peso intocável só atinge os materiais mais sensíveis. Tinge minha pele de vermelho, enreda nossas ideias, te faz esporrar no box. E, como um falsete perfeitamente executado, treme minhas janelas e estilhaça seus copos.

A ladainha perene reverbera pelos meus poros. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos. Sua pele. Sua temperatura. Suas mãos, seus dedos, seu toque, CARALHO.

17.9.20

O mundo é um puteiro

Me desculpe, Cartola, amo toda a sua obra, mas o mundo não é um moinho.

As coisas vão e voltam, sim, você estava certo, mas faltou um desenho.

Não na sua obra, ela é perfeita, faltou na minha vida.

Nesse moinho são os mesmos personagens, são as mesmas posições, são os mesmos desfechos.

E esse moinho se tornou um puteiro, daqueles de beira de estrada que você respira sífilis e boceja candidíase.

As vezes você é o dono do puteiro - pra quem tem sorte, o que não é o meu caso - e consegue ganhar algum dinheiro sem ter que se matar, mas logo aparece um cliente bêbado e armado, e você tem que começar de novo do zero porque tentou defender uma puta.

12.9.20

Ausência

Hoje acordei e pensei em escrever a verdade pra você. Mas não aquele você que finjo existir nos meus medos de me ver sozinha em plena noite de sábado ou domingo, sem ter um abraço pro qual recorrer – ainda que o seu nunca esteja lá.

Não aquele você que traz comida pra nossa casa, ato que tento endeusar como se fosse algo além de manter a existência – ainda que a seu lado seja só subsistência. Não aquele você cuja rotina é tão funcional quanto é patética e repetitiva, com aquele sexo que me faz gemer de boca fechada – ainda que sejam gemidos falsos e que eu quisesse dar gritos como uma puta que não posso ser contigo.

Não, não esse você.

С тобой в опасность, без тебя в тень

Se me entorpecessem desavisada os sons amorfos e os olhos de tempestade, e se me entorpecessem porque é nosso mero dever hedonista, eu me sentaria no banquete das efusões e das lamúrias e te escreveria com essas farpas.

Mas não te metrificaria. Esboçaria a sina, tampouco. Eu excomungo todos. Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov, Soljenítsin. Não dou permissão às palavras para te impor as suas fronteiras.

Se me tomassem os picos de adrenalina e o clima de altitude em uma noite clandestina, eu rimaria as luzes e te assistiria como protagonista da minha cena.

7.9.20

Perfume barato de vagabunda

- Sua secretária ainda se lembra de mim, acredita?! - disse com casualidade irrompendo pelo meu consultório, meia fina e salto alto.

Sentou-se no divã cruzando as pernas, exatamente do mesmo jeito de sempre, cruzando e descruzando, forjando uma camaradagem como se não me visse há poucos minutos.

Dois anos e dez meses. Estava com vinte agora. Havia entre nós o abismo de uma vida, no entanto. Minha idade ainda era mais que o dobro da dela.

Ah, que merda. Foi o que finalmente depois daqueles segundos que carregam eras, governos e revoluções saiu da minha boca, pouco intencional. Ela se divertiu vendo que me perturbava da mesma maneira. Mais, muito mais. Dessa vez eu não tinha me preparado para vê-la, diferente das outras. A surpresa me secou a garganta.

- Eu estava passando aqui perto e resolvi te fazer uma visita! - Decotes e mãos, muitas mãos.