7.9.20

Perfume barato de vagabunda

- Sua secretária ainda se lembra de mim, acredita?! - disse com casualidade irrompendo pelo meu consultório, meia fina e salto alto.

Sentou-se no divã cruzando as pernas, exatamente do mesmo jeito de sempre, cruzando e descruzando, forjando uma camaradagem como se não me visse há poucos minutos.

Dois anos e dez meses. Estava com vinte agora. Havia entre nós o abismo de uma vida, no entanto. Minha idade ainda era mais que o dobro da dela.

Ah, que merda. Foi o que finalmente depois daqueles segundos que carregam eras, governos e revoluções saiu da minha boca, pouco intencional. Ela se divertiu vendo que me perturbava da mesma maneira. Mais, muito mais. Dessa vez eu não tinha me preparado para vê-la, diferente das outras. A surpresa me secou a garganta.

- Eu estava passando aqui perto e resolvi te fazer uma visita! - Decotes e mãos, muitas mãos.


- Você estava passando aqui perto? - repeti entre espelhamento, caco automático da profissão, e incredulidade, as questões pessoais se sobressaindo e me traindo no meu tom. - Depois de ter se mudado? Um consultório a mais de mil quilômetros da sua casa, em uma rua sem saída, sem nenhum comércio nos arredores?

- Você entendia tão bem tudo o que eu falava... Perdeu o tino? - Ela se levantou e veio na minha direção, debruçou-se toda sobre a minha mesa e me olhou bem de perto, me medindo, a respiração continuando a minha. O oroboro. - Sempre adorei as rugas que se formam no canto só do seu olho direito quando você tá em guerra com você mesmo sem saber o que fazer. - Prendeu os lábios, suas pausas dramáticas e sua ânsia transtornada costumeiras. - Ou será que é sem poder fazer o que quer? - Voltou a me olhar fixamente nos olhos no final, como se me descortinasse. E talvez o fizesse.

-Foi pra me dizer isso que você veio? Agradeço o lirismo - segui impassível, o mais próximo disso. Nada impassível, nada, claro que nada. Concentrando toda a minha energia para isso, somente.

- Só vim te chamar pra almoçar, como nos velhos tempos, pra você reclamar que só como alface! - ela mantinha o tom casual.

- Não foi isso que eu perguntei. O que você quer de mim? - Cheguei para frente, e ela recuou, saindo da mesa.

- O que eu quero compreende uma zona cinzenta... Você me ensinou a expressar meus desejos pelo contraste: negando os seus. Santo de casa não faz milagre porque as pessoas se negam. Elas querem se consertar pela recusa. Como um analista pode tratar alguém se ele não aceita a si mesmo?

Eu nego o quanto eu quiser, me veio o pensamento automático, e me odiei pela ironia de esse lapso me fazer concordar com ela. Isso era um tipo de discurso de vingança pela minha diarreia verbal da última vez que nos vimos? Recorro à comportamental no esforço vão de me afastar e esmiuçar a situação sem me envolver. Não é pessoal, não é pessoal, repito em mantra para mim mesmo. E incorro em fuga. Evitação. Negação. Totalmente pessoal, passaporte carimbado.

- O que eu quero não tem materialidade no mundo real. Não pode ter. - Caminhava em círculos no meio do consultório, quase uma cena de invocação ou algo que o valha. Pareceu se desfazer da pose, seus olhos atravessaram a janela. - Nós dois somos impossíveis... - declarou profética e logo voltou a me encarar com o deboche descontrolado. - Suas punhetas são a epítome perfeita da sublimação. Gosta dessa palavra? Epítome. Ela vem do grego, enganar.

- Epítome significa cortar - enfatizo o cortar, a correção é também um corte. - Eu não vou inventar reunião, paciente, o que seja. Você já pode sair com o meu declínio. Eu não sou mais seu analista. E ainda que fosse, você não marcou horário.

- Claro.

Saiu do mesmo jeito que entrou, como quem puxa rápido um esparadrapo, com pouca margem para o processamento dos fatos.

Ela deixou o cheiro dela na sala, o perfume forte e penetrante já conhecido. Peço à secretária que dê um jeito no cheiro. Que abra todas as janelas, que chame a limpeza, que jogue ácido sulfúrico, que chame um padre que o exorcize. Não vou conseguir trabalhar assim. Cancela os pacientes de hoje, inventa qualquer coisa. Amanhã isso vai ter sumido.

Desço as escadas até o pátio. Um cigarro antes de ir embora. Dois, três, um maço. Eu parei e voltei a fumar por causa dela, falava. Ela ria dizendo que era só o bode expiatório. Não era. Nada além dela me fazia fumar. Dois anos e dez meses.

- Onde você arranja Derby?

Ouvi atrás de mim a voz rasgada e pesada demais pra idade.

- Provavelmente no mesmo lugar onde você arranja esse perfume mequetrefe - falei antes de me virar, ignorando que gelei inteiro só de ouvir a voz dela me pegando desprevenido. De novo.

- A decoração do pátio tá diferente. Gostei. Combina mais com você. Deixou de ser um problema dar a sua cara às coisas?

- Você vai demorar?

- Só esperei pra ver se você viria fumar. Pra eu saber que nada mudou.

Olhei para ela. O rabo de cavalo baixo, pro lado, se desfazendo, do mesmo jeito que eu tinha desenhado ela tantas vezes. Ela não fazia a mínima ideia. Em algum nível, ela estava certa sobre a simbiose de nos consertarmos.

- Você ainda tem aquela cisma de paixão platônica por mim? - perguntei reunindo toda a seriedade que há muito me escapara.

- Eu não chamaria assim, mas se você se sente confortável... - Ela se colocou bem na minha frente, no meio da fumaça. - Eu vim até aqui. Essa resposta é desnecessária.

- Terapia de exposição? - Meu sarcasmo se torna constatação e, então, epifania.

Ela fecha os olhos, abre os lábios. A respiração se avulta, sinto o corpo dela pulsando na minha pele, de tão perto. Sinto seu cheiro. Todos os seus cheiros. Sua soberba e suas falhas. Baixo o rosto, deixo que me beije. Mas ela não faz isso. Não, não, não, não faz. É uma ameaça, seu propósito de ser. E me sorri o sorriso dos troféus.

- E você? Já pode aceitar que me ama?

- Não. Não posso.

Apago o cigarro na parede e lhe dou as costas. A secretária me avisa que não vão demorar a limpar o consultório, embora ninguém além de mim sinta cheiro nenhum nele.

A mente gosta de pregar peças. O cheiro dela estava impregnado, eu sabia. Dentro de mim.


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Continuação do texto O telos da história

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