30.10.20

Romance

Chegando em casa, fim de noite, quase madrugada, me recosto na bancada sorvendo a noite temperada, a soberania dos pontos de luz da cidade e dos pequenos universos em cada um deles, e me ocorre essa nossa compulsória sujeição ao amor.

Essa coisa mágica que a gente se pergunta como pode ter acontecido em dois meses ou um pouco mais, como disse o Tiziano, se não aconteceu em três anos. Como você pode ter ficado dormente só porque viu ele entrar naquela sala em que você estava. Como o assunto pode ser tão fácil, o toque tão certeiro, o encontro tão intenso.

Sufoco o instinto de te procurar mascarando em outro alfabeto que sou louca por você com a transferência mais óbvia. Como o hambúrguer do dia anterior na geladeira. McDonald's, é claro, ápice desse sistema, marcando o contraste com a música ao fundo, que reflete o fundo dos meus pensamentos, aqueles que tenho fingido ignorar.

Eu já tinha começado a entender algumas palavras, a significar os sons e os movimentos arredios da tua língua, os teus sons, que passaram a preencher a casa e a mim.

28.10.20

A nós

16h32 de um sábado, meio de mês de primavera, céu de inverno.

Olho da janela as nuvens cinza pendendo sobre a cidade fria. Música italiana, porque é preciso ter um quê de impossibilidade de tradução refletindo a irrepresentabilidade das nuvens dentro de mim.

Da caneca, sobe a fumaça do seu chá embaçando meus óculos. A opacidade da visão desanuvia meus pensamentos.

Indomáveis, vão sugerindo formas. Mãos hesitantes alternam-se com mãos de propriedade. Lábios presos de falsas grades alternam-se com as pupilas dilatadas de entrega. E a busca e os murmúrios inconscientes da madrugada. Formas de cumulonimbus, as nuvens de tempestade.

Quadrilha

"Ainda vamos sair hoje?"

Vi a notificação no celular. Tocava algum pagode lado B, daqueles que provavelmente só eu e o produtor conhecemos, os próprios intérpretes mal se lembram de ter gravado.

Olhei a mensagem de novo. O pagode deu lugar a uma ladainha outra:

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

Sem vírgula, claro, esse trem descarrilado é impossível de conter.

Eu tinha caído naquele limbo dos quasi encontros. Quando você perde o controle e aí já sabe que é só ladeira abaixo. Vocês se falam empolgados, ele deixa um chocolatinho na sua portaria só porque é terça-feira, mas você já sabe que você perdeu. Você cedeu, afinal.

Escaparate

Eu vou fingir
Que o seu cheiro não resistiu às estações grudado nos meus poros
Que as minhas paredes absorveram sepulcrais todos os graves de barítono
Que seu suor não pesa mais o ar desse apartamento

Eu vou fingir
Que ouvir S sibilado todos os dias me fez parar de pensar no seu
Que despersonalizei a revirada de rosto, de olhos, de meio sorriso
Que onze categorias abarcam todas as pessoas do mundo, mas que o teu signo deixou de ser só teu

18.10.20

Raphaela

Ah, Raphaela, sua filha da puta.

Só esta alcunha me resta no reboliço de cabelos aparados, gestos comedidos e coxas de quem se sabe.

E os olhos de esquina que nunca saíram de mim. 

De esquinas, reticentes mesmo, daqueles que podem seguir pra qualquer um dos lados ou pra lado nenhum, e que tudo o que deixam são pontos cegos do seu sumiço no horizonte.

Espera

(ela se deita na cama, coloca essa música pra tocar)

Lembro que falei de você antes de dormir. Falei, hahaha, isso dá muito a impressão de que escolhi e desde aquele dia não tenho escolhido muitas coisas salvo fugir de você. Eu não sei do que eu fujo. Se é do jeito que me olha de cima e parece me ver toda; se é do toque e do cheiro da tua pele, que ficam em mim até o dia seguinte; se é do som da tua voz que reverbera e não deixa nenhuma palavra ficar, só o eco do meu próprio desejo... não sei. O que eu sei é que me dá medo estar perto assim. Clichê demais, eu sei. Pareço uma porra duma princesinha ridícula do século XXI pedindo pra ser salva dum monstro que nem existe - ou, pior, é ela mesma. 

Mas não é isso. Não quero salvação, não quero além. Quero o terreno. Que esse toque estranho que me faz não saber mais o que é meu corpo e o que é o teu. Quero esse jogo um pouco ridículo, um pouco divertido que é me insinuar e fugir e te ver vir atrás. Quero a tua promessa do impossível, do eterno e de tudo o que a gente chamou de religião - e é isso o teu corpo no meu, afinal. 

1.10.20

Arrendamento

Não me venhas com as mãos e o arquejo
Que, de bandeja, incansavelmente te negaras
Não, não me tragas as obsequiosas ofertas
Daquilo que tu mesmo a ti te recusastes*

Não ouses suspender reservas e freios e tocar meu corpo
Como se a ti pertencesse tal qual bem inalienável
O mesmo, cego ao penhor, do qual rasgara a escritura
E virastes as costas à caneta te aguardando assinatura

Não, não me molhes boca, não queira me molhar os lábios
A ti fecho a abertura da natureza, o intrínseco não selamento
Estes apátridas caminhos não te servem ao nomadismo
Desabitados, não te servem à residência, tampouco