1.10.20

Arrendamento

Não me venhas com as mãos e o arquejo
Que, de bandeja, incansavelmente te negaras
Não, não me tragas as obsequiosas ofertas
Daquilo que tu mesmo a ti te recusastes*

Não ouses suspender reservas e freios e tocar meu corpo
Como se a ti pertencesse tal qual bem inalienável
O mesmo, cego ao penhor, do qual rasgara a escritura
E virastes as costas à caneta te aguardando assinatura

Não, não me molhes boca, não queira me molhar os lábios
A ti fecho a abertura da natureza, o intrínseco não selamento
Estes apátridas caminhos não te servem ao nomadismo
Desabitados, não te servem à residência, tampouco 

Sentes os alheios rastros neste corpo vil
Da língua alheia que me percorre quadril e cintura
Da saliva alheia que me eriça alma e superfície
Dos dentes alheios que me cravam nuca e efusões

Sentes as alheias marcas no, ainda mais vil, espírito
Da temperatura alheia que, simbiótica, febre me torna
Dos fluidos alheios que pelas pernas me transbordam
E do alheio toque que na conexão em nativo se transforma

Arrendes a terra que a ti não te fez pertencer
Vás erguer acampamento em qualquer terreno outro
Que o vento por si se encarrega de varrer os passos
E busque por ti mesmo os teus próprios orifícios


* Pobre homem aquele que, de ingenuidade e ilusão constituído, opta por enganar-se pensando que a recusa - ou a permissão, como preferes - ocorre em qualquer âmbito outro, remoto ou diferente do de si mesmo.

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