10.11.20

Oroboro

Acabei com o quinto maço de cigarro só hoje.

Eu tô o próprio Bukowski, bebendo até endireitar a diplopia, fumando até não ter mais o que improvisar como cinzeiro e escrevendo compulsivamente.

Desisti dos copos, que há muito transbordam as guimbas, e repouso a garrafa prendendo os papéis que de bom grado acolhem os meus garranchos fugindo das linhas.

Não são só essas três coisas, é claro, ou elas nem teriam propósito de existir. 

Tem a anterior a todas elas, minha fonte e minha causa: você.

E é esse pensamento em você, invasivo como a pontada contínua da enxaqueca, que me prende nesse ciclo de evitação: te bebo, te fumo, te escrevo; te engulo, te trago, te teço; te mastigo, te sugo, te metonimo.

Eu te forjo em grafite e celulose.

E forjo que me descem pela garganta tuas torrentes, forjo que me adentram os pulmões teus odores de zênite, forjo que alteram a química do meu corpo todos os teus malabarismos, a ponto de se materializarem no papel.

E ali, tão tangível o etéreo, a impossibilidade de você me retalha o espírito. Então eu dou mais um gole, e batalham os pulmões contra a tentativa de analgesia.

É claro que sei que o destilado que me rasga a garganta não é a tua outorga, que a composição química que me dilacera os brônquios não são os teus meios tangentes de me desnudar a alma.

Não te degusto lento no palato, não te esmiúço o sabor furta-cor nas papilas, não te sorvo aos solavancos pela extensão do esôfago.

Não te trago profunda e por completo, não te arrasto afagando as vias aéreas, não te transmuto minha nas trocas gasosas; por isso, é claro, te escrevo, e me alimenta o ciclo.

Te presentifico enquanto te expurgo, te trancafiando nos fundos falsos dessas gavetas, te extinguindo à última gota, te descondensando nos ares de ventania.

De repente, lavo os copos, espano a casa, troco a combinação das trancas e arremesso as chaves atrás de um terreno baldio.

Ah, merda. Fui vencido pela minha própria armadilha.

Tal qual os copos, as linhas, os cinzeiros intempestivos, tudo, absolutamente tudo em que toco e que vejo, essas gavetas continuarão derramando você.

Por fim, entendo o oroboro autodestrutivo. Eu só vou extirpar você se eu conseguir ir embora de mim.

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