30.12.20

Próximo

Sim, eu sinto. E por sentir demais me ausento, limpando os cacos de nós dois, desde você concordar sobre a nossa química ser fora do normal até o obrigado pela visita vindo de quem expulsa todo mundo de casa, do corpo, da vida.

Você suplantou qualquer outra coisa possível que veio antes de você, entende?

Embora os pés atrás te impedissem de mergulhar.

Eu não tive muita escolha. Seu cheiro, seu beijo, a força no toque. Você me enredou em você.

26.12.20

Voz penetrante (e outras coisas)

Noite adentro de conversas ambíguas. Nada ébrio, me falta a escusa típica. É só um flerte, um passatempo nada condenável, ou nem isso, nada disso, me digo. Quem, assistindo a esses assuntos tão inocentes, diria o contrário?

Raspando a superfície da superficialidade. Ali, ainda, mas naquela pele fina da quase revelação. Não, claro que não me entreguei demais. Ainda consigo me safar com um "não era bem isso, veja bem".

Te visualizo com os olhos inquiridores e o sorriso sacana de canto de boca. 

Eu, deitado no sofá, TV ligada em um arremedo de gourmetização dos clássicos programas de auditório. A trilha sonora nacional dos dias de ócio.

Você. Só de calcinha, de renda, claro, algo entre vermelho, vinho ou roxo, deitada de bruços, perto da janela, porque precisa da poesia da vista da cidade e da vida e dessas coisas todas, e porque tem um quê de exibicionismo pra algum vizinho desavisado que já perdeu o tino fácil contigo.

23.12.20

Sim, esse texto é sobre você

Sim, esse texto é sobre você.

Toca Roxette. Mas eu não preciso da melodia mascando minha mente feito chiclete pra eu arrepiar dos pés à cabeça com a sensação de você.

É isso. Há muito tempo você já não é mais só pensamento, é sensação que fez raiz dentro de mim.

Todas as músicas agora falam de mim. De nós. Da porra do seu bairro.

Debochando da ilusão de que poucos meses diluem sentimento. De que o bunker de guerra que construí te expurgou de mim, quando tudo o que fez foi me aprisionar mais nos meandros do teu jeito.

Dá pra não sentir falta?

7.12.20

A minha estrada corre pro seu mar

Calar é fácil. Difícil é arredar os pensamentos e deixá-los em seus devidos cantos.

Ofuscar é fácil. Difícil é te ver e chegar perto.

Dissimular é fácil. Difícil é te olhar nos olhos, quando tudo se embola e faz a gente se conectar no nosso sorriso trocado de cúmplices.

Reprimir é fácil. Difícil é sentir pele com pele, como se fôssemos uma extensão um do outro. E lembrar que a realidade impõe mais barreiras que pontes.

Recuar é fácil. Difícil é estar nos seus braços e sair como se a eles eu não pertencesse, e como se seu toque não continuasse reverberando pelo meu corpo.

Negar é fácil. Difícil é não deixar as portas abertas, se elas mesmas se recusaram a se fechar para você.

2.12.20

Dilema

Hoje faz exatamente um mês desde aquele dia em que eu quis desesperadamente beijar sua boca, só de ver seu jeito de andar.

É, eu não te disse, mas foi por isso. E já te imagino lendo isso e fazendo alguma piada ruim com quiropraxia e calistenia (que talvez tenham ajudado, não nego).

Seu jeito de andar me passa algumas coisas. Uma certa apreciação das coisas como elas são, no contraste com um espírito escrutinador e resoluto.