21.1.21

Coisa de pele

Se quer mesmo saber, teu cheiro ainda está aqui, canta Theodoro Nagô revolvendo lembranças que ainda exalam da pele.

Exalam do ar do apartamento de fundos, exalam do colchão já nostálgico, exalam dos meus poros irreplegíveis. E não falo do cheiro do teu perfume, embora igualmente penetrante, mas da tua pele. Teu cheiro fazendo precipitar no meu palato também o teu gosto.

Me desce queimando a garganta e me preenche, como se de alheio e intruso tivesse então se mesclado, correndo sinapses e riscando a pele por dentro, constitutivo.

Acendo o incenso forte, medito buscando direcionar a mente, o caminho natural e óbvio.

Não hoje.

Hoje me distrai fácil a atmosfera de você.

Me tomam o peso das mãos e o baixo relevo das pintas tracejando a pele. Me enlaçam o desenho de cada detalhe pela extensão dos teus 1,76m, e a expressão fechada, tão séria e sedutora, no atrito escorregadio de mim. Me sequestram, é isso, teus sons, meu sotaque na tua boca, tua boca.

E o pensamento arredio me esboça um sorriso, o lápis é teu.

Que grande armadilha satisfazer a esses súbitos desejos trocados! Deveriam se extinguir nas contrações em meio aos lençóis, no padrão dos dias. Por que dessa vez eles não me deixaram?

Se bobear, eu meto o louco, eu deixo a porta entreaberta pra você voltar. Tente não se zangar, porque talvez não seja apenas coisa de pele, tente compreender.

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