19.2.21

33

Olhos, olhos de renúncia antes da largada
A visão literal, comprometida e borrada
Contando a percepção particular dos teus pousos e paradas

Sobrancelha; sim, singular, porque mais a direita
A sensação constante de espreita
E de escolhas que não se permitem refeitas

Lábios, as pazes e as rinhas
A pressão, o ritmo, as bainhas
Que, relutantes, se entregam nas covinhas

Sorriso, que me mastiga a mente
Que se insinua entre sacana e inocente
Desenhado sobre a perfeição dos dentes

Mãos, principalmente as mãos
Suas histórias que foram deixadas em outros chãos
E as que você reescreveu nos meus vãos

Ômega e Alfa

Sim, eu saberia dizer.

Teus desvios da verdade, primeiro, mesmo eu não sabendo deles - do jeito que se aceita dizer como saber - de cara. Mas fáceis de supor pra quem também os tem.

E, neles, os atalhos. Mas fechados, claro, pra não permitir expedição outra além daquelas que você mesmo pode chefiar - e ordenar o tráfego.

4.2.21

A Chama da Paixão... e do Caixão

Quando vi aquele homão, forte, cabelos ao vento à la "Anunciação", pele moreno-jambo, olhar de comedor da Baixada Fluminense, logo senti que tinha que ter algo de errado.

Estava sem camisa capinando um lote, suado nas temperaturas amenas do janeiro carioca, calça branca de terreiro toda colada, marcando uma jeba de proporções descomunais.

Cara, havia algo de muito, muito errado.

Essas sortes não aparecem na minha vida, eu, acostumada que soy com piroquinha -15 que só resvala pela entrada, deixando intocada a caverninha.

Meu colo do útero, clamante, logo se contraiu. "É hoje que vou ser apresentado diretamente a uma estocada de rola", eu podia ouvi-lo. Mas algo me dizia que aquele homem robusto e madeirador estava envolto em um grande e sombrio mistério.

Depois de perceber que meu dedo indicador da mão direita afinou consideravelmente, pensando naquele espécime forjado no mais puro néctar da testosterona, vi que precisava agir. Logo fui a uma cigana saber do meu destino.

Na hora que a mulher virou o jogo, revirou os olhos num transe mais profundo do que minha buceta sabia que seria explorada, e caiu pra trás. Dos seus lábios, ouviam-se sussurradas estas palavras: "Sai, sua vagabunda, esse homem é meu, eu quero, que delícia, caralho".

Olhei aquela cena patética indignada. A cigana queria me passar a perna? Até ela? Só porque meço metro e quarenta e tenho essa carinha de trouxa?! Ah, tudo tem limite. Saí de lá sem pagar e olhando para trás, porque sou destemidah.

Mal sabia eu o que me aguardava. A cigana, sedenta pelo alfa da matilha, e puta que não paguei e ela não conseguiu comer o BK que planejava, me lançou uma maldição: a chama da paixão seria acesa nas minhas entranhas, mas meu estacionamento nunca veria a tal tuneladora.

3.2.21

Copo que vai enchendo

Yasmin Santos canta como se me visse aqui em casa. A voz que me adentra o peito "Gastar saudade, economizar vontade" revirou tudo em mim. E me derrama pelos poros você.

Será que você me aparece, óculos e o típico contraste de você, cara séria e sorriso juvenil, mordida no lábio e máscara do Mickey?

Se eu prometer...

Só te levar pela porta dos fundos. Sendo o plano B. À meia-luz, no canto escondido. Como reserva, segunda opção. A desimportância para quando a conveniência abrir suas brechas, dado que somos contingência, nunca premeditação.

Se eu prometer...

Sentar à mesa ao lado. Com outra. Tendo sempre algum compromisso, até esquecendo que você está no mesmo ambiente que eu, sem te olhar um segundo sequer, sem meu olhar procurando conexão e você absorta nas tuas preocupações.

Se eu prometer...

Nunca te ligar quando estiver na fila do Starbucks da Paulista, porque é claro que não senti teu cheiro do nada e me chamuscaram até o espírito as marcas de você. Não dizer que te amo, que você me queima. Porque você não reincinde. Na cama. Na parede. No chão.

2.2.21

Iris

Por ti, Elizabeth, eu seria o barro e a expansão, moldando nossos corpos, ascendência e descendência, essência... no toque.

E seria a maçã e o meteoro, a suposta destruição que é também origem de toda nova realidade. A negação da Escritura, a reescritura.

E eu seria a sinuosidade da sedução, o pretexto do convencimento, o vir a conhecer. O olhar do escrutínio refletido do mundo, a mordida da experimentação, a metáfora do saber e o desacordo com a sacra ordem. O desvio.

E, assim, eu seria então os trilhos. Os teus trilhos. Pra ser meio, pra ser caminho, pra ser continuidade. Pra ser direção, mas, principalmente, o que permite ir em frente, irrefreável pelo que quer que seja.

E haveria, então, as paradas, mas eu seguiria. Para você, repousada, seguir também. Comigo.