14.3.21

Dez a um

O interfone toca. São 2h43 da manhã. Mais uma madrugada que me reviro nos lençóis com a invasão dos seus trejeitos forçando todas as funções do meu corpo no limite, me mantendo desperta.

O interfone toca, reincide, insistente.

Algum engraçadinho, trote, uma desculpa. Eu não ia atender nem fodendo. Me reviro nos lençóis, sigo a leitura de algum livro sobre arte contemporânea, como se minha cabeça estivesse de fato em happenings e instalações - eu detesto arte contemporânea.

Mas a campainha me faz saltar da cama. Interfone, ok. Mas campainha? A essa hora?

Penso em ignorar, mas o "Valentina" grave me suga em um segundo até a porta, a mão automática na chave. A tessitura, o timbre e a cadência particulares. O sotaque que na tua boca se torna só teu.

Falo seu nome, é uma pergunta, não pode ser. Você mora do outro lado da cidade, e, caralho, é madrugada. Mas o teu "Ufa, caralho" me confirma.

Eu tinha me esquecido do seu poder de persuasão frente a uma equipe inteira de porteiros que, mesmo com o pouco tempo, já decorou seu nome e rosto.

Pulo no seu colo, a urgência sôfrega dos desejos que se tornam necessidade. Sua boca na minha é mais do que encontro. Te sorvo. Absorvo você dentro de mim. Sedimentando as treliças que a saudade deixa.

De você. E do monte de mania somática que você tem. Dos horários perturbados. De você me levantar como se eu fosse um halter de 3kg. De você secar o chão do meu banheiro do nada. Do soterramento de justificativas desnecessárias. Da assimetria das sobrancelhas. Das ambivalências, que fingem pacificamente conviver, mais assimétricas ainda. Das músicas denunciando todos os descaminhos do percurso de duas vidas inteiras, meus e seus, de "nothing compares to you" a "I don't wanna fall in love with you".

Nos permito. Me permito, antes. Na tua boca. Na tua língua. Nas tuas mãos. Em você. A queimadura quando é muito intensa, gela. Do mesmo jeito que sua voz, sua voz apenas, soterra todo o castelo de razão que levei décadas para construir.

Vem?

Por isso é que o corpo da gente tá pegando fogo, e a razão da gente tá perdendo o jogo. A emoção da gente dá de dez a um.

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